sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

As observações no campo da investigação


Foi minha preocupação, antes e durante essa jornada acadêmica, atentar para o grau de autonomia ou sujeição das pessoas, em relação aos condicionamentos socioculturais, sobretudo os advindos da religião. Esteve sempre presente o cuidado de aferir como cada pessoa reage às imposições e até que ponto ela se conforma com as regras estabelecidas para sua integração ao ambiente social. Desnecessário se torna esclarecer que essa investigação resulta de um posicionamento, de uma experiência pessoal refletida, já narrada em tópicos anteriores deste trabalho. Necessário, porém, se torna afirmar que tal experiência não constitui privilégio de quem quer que seja, ela está aberta a tantos quantos estejam dispostos a analisar a realidade e suas circunstâncias. É mister que todo aquele que se deseja autônomo, crítico e sintonizado com a realidade seja rigoroso consigo mesmo no propósito de buscar e rebuscar as origens de seu percurso religioso e de sua fé (ou crença). Muito embora esteja caracterizado aqui meu comportamento cético quanto à mensagem religiosa, não desejo apresentá-lo como um novo modelo de compreensão da vida, mas como uma escolha refletida, criticada. O que pretendo, sem dúvida, é contestar a forma de cooptação que as religiões exercem sobre as crianças, ou seja, realizam a abordagem sobre os infantes num período em que eles não possuem condições ideais para analisar a validade da mensagem recebida, mas a assimila, em virtude de seu poder coercitivo. Pior de tudo, consoante já repetidas vezes mencionada neste trabalho, é a dificuldade de as pessoas decidirem, já na idade adulta, por uma abordagem crítica desses ensinamentos, uma vez que eles adquiriram, pela repetência sedutora, o estatuto de verdade. Este é o desafio não aceito pela grande maioria e que justifica, neste trabalho, uma investigação no ambiente social onde os membros sejam, ao mesmo tempo, adeptos de crença religiosa (provavelmente) e profissionais da educação.

Como instrumento metodológico de investigação, realizei uma consulta junto a educandos de pedagogia, por dois motivos: eles são, como alunos, partícipes de uma proposta de educação transformadora em sentido amplo, isto é, não conciliável com o status vigente; por outro lado, eles exercem, em sua maioria, a função docente, em outros espaços. Em ambos os casos, há um compromisso de constituição de sujeitos autônomos e infensos à alienação. Para tanto, cerca de quarenta questionários foram distribuídos, mas apenas quinze foram devolvidos. Há certamente dificuldades para a devolução de todos os questionários, em conta o desinteresse de uma parcela dos receptores e o desencontro de muitos com quem está realizando o levantamento de dados. Mas as respostas levantadas permitem concluir, por amostragem, que as hipóteses aventadas se confirmam quase plenamente. Significa dizer que o universo de profissionais de educação já formados e em formação está perfeitamente sintonizado com os preceitos de uma sociedade que, por força da colonização e dos condicionamentos socioculturais e civilizatórios, desenvolvidos através dos tempos, se tornou cristã. Conquanto não tenha observado nos questionários qualquer sentimento contrário ao pensamento cristão, cumpre ressalvar que essa posição não é unânime e há pessoas, em minoria, que não professam qualquer credo. Isso, porém, não foi possível captar nas respostas, mas outras atitudes pacientes de investigação, realizadas em contatos informais e aparentemente desinteressados, no mesmo ambiente pedagógico, permitem afirmar que há um número reduzido de pessoas cuja proximidade com a religião é nula, conquanto essas mesmas pessoas vivenciem algumas práticas sócio-religiosas, tais como batismo de filho recém-nascido, casamento na igreja, utilização de alianças como instrumento identificador de noivado (mão direita) e casamento (mão esquerda) etc. É bem verdade que as transformações, muito lentas, que se realizam no seio da sociedade, fazem do uso da aliança, nos tempos de hoje, mais um adorno obrigatório que propriamente um compromisso, embora este ainda seja respeitado por algumas camadas sociais que seguem os postulados religiosos. O que pretendo é demonstrar que a adoção de costumes oriundos da religião por pessoas não alinhadas com o pensamento religioso bem demonstra a força persuasiva e sedutora da mensagem cristã, significando que seu poder de penetração nos grupos sociais contribui, outrossim, para o estabelecimento de hábitos e costumes culturais.

É facilmente identificado nos adeptos dos credos cristãos, formados na estrutura do senso comum, o desejo de receber graças e bênçãos. Esse procedimento se torna mais evidente quando o fiel, inclusive o estudante de pedagogia, insatisfeito com os resultados de sua permanência numa igreja, migra para outra, igualmente cristã. Por outro lado, quando sua presença em determinada igreja coincide com períodos de prosperidade material, vida afetiva satisfatória e saúde regular, certamente essa igreja será eleita como a verdadeira mensageira de Deus. Não raro, em algumas igrejas emergentes e seitas , comenta-se entre os crentes a ocorrência de milagres, a maioria dos quais foi obtida através da oração e da concomitante contribuição pecuniária para os cofres da respectiva igreja. Em muitos casos, principalmente nas igrejas pentecostais, a contribuição em dinheiro, ou oferta, é condicionante para que a graça seja alcançada. Muitas vezes, é possível assistir, pela televisão, aos diagnósticos que algumas fazem para aqueles que não obtiveram graças, responsabilizando a falta de engajamento numa corrente específica de bênçãos, engajamento que só se materializa pela oferta.

Outro tópico da observação que deixa patente a necessidade do sobrenatural é, além da opção de alguns pelo espiritismo, a simbiose que outros investigados fazem entre o pensamento cristão e o kardecismo. Embora esta corrente se permita coexistir pacificamente com o cristianismo, admitindo até correlacionar o espiritismo com as escrituras ditas sagradas, é do conhecimento de muitos a posição de algumas igrejas cristãs, principalmente a católica, contrária aos postulados do kardecismo. Como a liberdade religiosa é ilimitada, atualmente, nada impede que essa prática simbiótica seja gradativamente cultivada, até porque o indivíduo que assenta sua experiência no senso comum busca mesmo é a instância do sobrenatural que traga resultados, tanto na vida temporal quanto na eternidade. Aqui, igualmente, se detecta, mais uma vez, resistência àquilo que me referi em etapa anterior do trabalho: o exame da possibilidade, isto é, compreender e explicar a mediunidade e a reencarnação como princípios não apenas críveis mas também possíveis, viáveis à luz de nosso aparelho psíquico perceptivo. Às vezes, surgem indícios de inconsistência no espiritismo, mas a vantagem de crer incondicionalmente é tão grande, que examinar com critério e rigor suas premissas epistemológicas pode provocar um grande desconforto espiritual ou, mais precisamente, uma grande desestruturação do psiquismo do crente. Tal qual o cristão recebera objetivamente como válido o conjunto de ensinamentos que consagra o poder da oração, os milagres, a revelação divina, etc. como fonte de felicidade e não ousa submetê-lo a uma reflexão, o adepto do espiritismo também não se aventura a uma investigação fora dos muros delimitados por Kardec e afirma ter provas incontestáveis da legitimidade de sua crença.

Mas o ponto central, mais emblemático, nas respostas aos questionários, é quando o investigado é instado a manifestar-se sobre os seguintes pontos:

- sua adesão ao credo aconteceu por uma escolha sua, de sua família ou por outra orientação?
- como educando em Pedagogia, você entende que o ensino religioso deva ser ministrado a crianças/adolescentes? Caso afirmativo, os pais devem participar da escolha do credo?

Estas perguntas não se encontram próximas no questionário; pelo contrário, elas se situam, respectivamente, no meio e quase ao final do questionário. Na primeira, das quinze respostas, onze afirmam ter escolhido pessoalmente, três contaram com intercessão da família e uma não respondeu; na segunda, nove respostas, incluindo os que, na primeira, afirmaram ter escolhido por conta própria, manifestaram-se favoráveis à interveniência dos pais na escolha dos credos dos filhos. Ora, todos nós sabemos que a introdução à catequese sempre ocorre pela iniciativa da família, que escolhe para os filhos o credo por ela praticado, naquele momento. Mesmo quando, de modo excepcional, os pais não se interessam pela educação religiosa de seus filhos, o seu ambiente sociocultural produz sempre intermediações que acabam por levar a criança a essa ou aquela igreja. Trata-se, pois, de uma evidente ingenuidade admitir que aqueles, na infância, optaram pela crença que professam nos dias de hoje. Poder-se-ia afirmar que há um esforço muito grande para não perder a referência balsâmica que a crença lhes proporciona e, concomitantemente, demonstrar que suas cabeças não foram feitas. Por outro lado, em conta a boa vontade demonstrada no preenchimento do questionário, sinto-me inclinado a acreditar, também, que a resposta de escolha pessoal na infância, sem intervenção de quem quer que seja, se deva a uma solene ingenuidade. Creio até ser desnecessário um questionário para investigar essa prática: todos sabemos que a escolha da religião dos filhos, por motivos culturais fortemente arraigados, é prerrogativa de seus pais ou responsáveis. Constata-se, nessa interpretação, que o pátrio poder se permite a faculdade de escolher a religião ou a concepção de mundo dos filhos, desconhecendo, certamente, que tal escolha representa flagrante invasão da liberdade de pensamento.

Tais considerações, contidas na amostragem, tendem a revelar uma significativa inobservância aos princípios fundamentais da moderna pedagogia, qual seja a de impor à criança determinada concepção de espiritualidade, reservando aos pais o uso dessa prerrogativa. Ora, como pode o profissional de educação que fala no aluno como partícipe do processo de ensino/aprendizagem admitir que a escolha de algo tão importante para sua vida será determinada por outras pessoas? Se um dos pilares de nosso projeto pedagógico é a constituição de sujeitos, não estará prejudicada, naquela avaliação, a concepção teórica que a justificou? Quem teria percepção suficiente para identificar, na criança, o momento oportuno para intervenção do educador, a zona de desenvolvimento proximal (ZDP) de Vygotsky, (REGO:1995, p.70-75), visando a construção do conhecimento religioso básico? Em que momento os apologistas do ensino religioso para crianças situam essa ZDP? Em exame mais aprofundado do assunto, não será provável que tais procedimentos estejam vinculados a uma psicologia de massa, a qual justifica a homogeneização do comportamento humano e despreza qualquer iniciativa pedagógica de emancipação do indivíduo? Que diremos, então, dos temas abordados em disciplinas pedagógicas, durante o Curso, que sugerem reflexão e alternativas ao pensamento dominante? Será que tais conteúdos, esbarrando na força do conhecimento culturalmente sedimentado, têm vida útil até que sejam submetidos a avaliação pelos professores das respectivas disciplinas e se volatilizam depois dela? Sim, eles não são apreendidos, não são apropriados e se prestam tão-somente para o cumprimento da etapa formal do curso, a avaliação, que permitirá ao graduando a obtenção do diploma e, consequentemente, o exercício da função de pedagogo. Obviamente, os trabalhos que foram apresentados para a referida avaliação sempre corresponderão às expectativas de uma educação de vanguarda, mas o futuro pedagogo sabe, de antemão, que a grande maioria daqueles pressupostos não será aplicada efetivamente no dia-a-dia pedagógico, porquanto esbarra na estrutura tradicional. Posso, por exemplo, citar excelentes trabalhos de sala de aula, interpretando o pensamento alternativo de Nietzsche, Michel Foucault, Dürkheim e outros, os quais se volatilizam, conforme dito anteriormente, após a avaliação. O resultado, sem dúvida, é a permanente dissensão entre teoria e prática.

Apesar dos diversos empecilhos e do longo percurso a ser percorrido, não há por que desanimar, pois, se os olhares se voltarem para trás, ver-se-á que já não vivemos os tempos da tirania inquisitorial, concordar-se-á que os projetos educacionais já são discutidos fora das esferas governamentais e eclesiásticas, o que nos permite visibilidade de melhores dias para a educação. E é justamente sobre mudanças realizadas no ensino religioso, embora tímidas, que se torna possível relativizar esse otimismo. Esta é a abordagem seguinte.

O que diz a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB


A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/96, sancionada em 20.12.1996 pelo Presidente da República, estabelece, em sua versão original, a seguinte redação para o artigo 33:

“O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, sendo oferecido, sem ônus para os cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus responsáveis, em caráter:
I - confessional, de acordo com a opção religiosa do aluno ou do seu responsável, ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados ou credenciados pelas igrejas ou entidades religiosas; ou
II – interconfessional, resultante de acordo entre as diversas entidades religiosas, que responsabilizar-se-ão pela elaboração do respectivo programa.”

Posteriormente, o mesmo Presidente da República sanciona a Lei nº 9475, de 22 de julho de 1997, e “dá nova redação ao art. 33 da Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional”. Eis o teor:

“Art. 1º. O art. 33 da Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar com a seguinte redação:
Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.
Parágrafo 1º - Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores.
Parágrafo 2º - Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso.
Art. 2º . Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.
Brasília, 22 de julho de 1997, 176º da Independência e 109º da República.”

Conforme menção anterior, a mudança não revoluciona o ensino religioso. Pode-se até afirmar que ela apresenta algum retrocesso, quando omite, na nova redação, a expressão original “sem ônus para os cofres públicos”. Obviamente, essa omissão abre um imenso espaço para que o ensino religioso seja utilizado por governantes inescrupulosos, que se valeriam da ingenuidade de expressiva faixa da população brasileira, para explorar eleitoralmente as suas crenças, utilizando-se, para tanto, de verbas destinadas à educação. Pode-se afirmar, também, que fazer nova redação para o ensino religioso na LDB representa igualmente um retrocesso, pois o ideal seria revogá-la por inteiro, haja vista que as escolas públicas de ensino fundamental funcionam em espaço mantido por toda a sociedade brasileira, que, por sua vez, não tem por que arcar com despesas eminentemente particulares, isto é, das entidades confessionais.

Há que convir, no entanto, que a expressão “vedadas quaisquer formas de proselitismo”, caso não seja habilidosamente burlado o espírito da Lei, significa preservar as crianças de uma prematura formação religiosa, pelo menos na escola. Parece-me que essa particularidade revela o limitado avanço que o legislador conferiu ao novo texto da Lei. A supressão da prerrogativa “de acordo com a opção do aluno ou do seu responsável” revela também sensibilidade dos membros de nosso Legislativo, posto que não submete a criança, nas próximas etapas da vida, à profissão de uma fé em que ela não estava suficientemente preparada para compreender.

Mesmo assim, há um ponto cercado de grande nebulosidade, justamente o que observa “o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil”, constante do caput da nova redação do artigo. A preocupação é quanto à preservação da referida diversidade, a partir das determinações contidas nos parágrafos 1º e 2º, que tratam da habilitação/seleção de professores e definição dos conteúdos. E explico. A separação entre Estado e Igreja, no Brasil, está consagrada desde a proclamação da República, mas a prática tem demonstrado que as autoridades religiosas têm livre trânsito nas esferas governamentais e influem, vez por outra, nas decisões dos governos. Ademais, é possível observar em diversas instâncias do setor público, principalmente de nosso judiciário, em posição de destaque, a imagem de Jesus Crucificado.

Conclusão


A apresentação das ideias aqui refletidas expressa, como não podia deixar de ser, o conhecimento construído durante o período de graduação. Eu já possuía de maneira assistemática e bem desorganizada os fundamentos da proposta que está sendo colocada neste trabalho monográfico. Ao longo da formação como pedagogo, foi-me possível agregar novos conhecimentos e observar toda a engrenagem de sustentação de um Curso que pretende criar condições favoráveis à emancipação dos indivíduos por meio de uma educação de vanguarda. Não sou pretensioso a ponto de admitir que cheguei ao fim da encruzilhada; apenas cumpri uma etapa que me permitiu, no nível de graduação, elaborar um trabalho que resultou do enriquecimento que me foi proporcionado ao longo desses quase cinco anos de aprendizagem. Por isso mesmo, cumpre-me enfrentar novos desafios, pois não há como interromper uma caminhada que, parece, não possui ponto de chegada previamente definido.

Quando admito que já possuía uma base desorganizada para os fundamentos de meu objeto, é porque, antes de ingressar na FEUFF, eu já vivia a fase de superação da inquietude e ingressava no terreno do desconhecido e da perplexidade. Depois de passar longos anos desatando os nós que me aprisionaram desde a infância, vi-me, de repente, completamente solto e livre das amarras, mas surpreendido por saber que nem todos encontram os caminhos para a libertação do jugo alienatório. Considerei-me privilegiado em ter refletido a respeito dos labirintos da vida e ter saído incólume depois de longo tempo. Muitas setas nessa estrada apontaram o caminho da reflexão. Estava eu tranquilamente curtindo minha trajetória em direção ao céu, quando, de repente, algo sinalizava para o retorno. As setas eram detalhes (agora sei), sinais particulares, segundo Carlo Ginzburg (1989, p.143-179), autor que se vale de um modelo epistemológico que ele mesmo denomina “paradigma indiciário”, ferramenta que permite ao observador teoricamente sensibilizado desvelar o conhecimento subjacente, negligenciado por outros e consubstanciado em indícios. Através destes, fiz uma reviravolta na minha cabeça, parei de usar chapéu. Precisava, contudo, de algo mais esclarecedor, mais sistematizado, que me permitisse ampliar minha visibilidade a respeito dessa imensa complexidade que é o ser humano. Foi, então, que minha ex-companheira de sugeriu-me o Curso de Pedagogia da UFF, do qual ela já possuía graduação. Disse-me ela que ali se encontrava o espaço privilegiado para as discussões que envolvem princípios da formação humana. Por isso mesmo, cumpri a jornada do Vestibular de 1999 e cá estou concluindo este primeiro percurso.

Foi necessário que eu fizesse esse comentário preliminar, para depois justificar a elaboração deste trabalho. Na sua introdução, expliquei que se tratava de um desafio. E agora concluo que os conhecimentos construídos a partir do primeiro período fizeram-me compreender que as dificuldades para contornar os obstáculos de uma educação transformadora são bem maiores do que eu imaginava. Durante a graduação, pude conviver num ambiente discente que abrigava algumas pessoas, a maioria, que expunham as mesmas feridas que me preocupava vê-las curadas. Em vão, quantas vezes, procurei mostrar a alguns colegas que a vida é uma revisão constante, mas ouvia perplexo que certos valores não podem ser mudados, porque eles explicam a própria vida. Não raro, ouvia depoimentos em que o êxtase espiritual esteve presente, correspondente a uma intervenção divina. E, de repente, faço um retrospecto de minha vida e redescubro que quando tinha a idade de meus e minhas colegas de agora(a maioria), eu era igualmente um adepto dos mesmos princípios. Mais adiante, compreendo também que levei muito tempo examinando a legitimidade, ou ilegitimidade, de tudo que para mim se havia transformado em valor. Mas, no momento que me dispunha a examinar os valores que incorporei de minha circunscrição cultural, tornava-me uma exceção da inexpugnabilidade diagnosticada por Freud(2001, p. 74-75) e assumia a atitude filosófica preconizada por Chauí(1999, p.11-12). A vida, depois de me trair, abriu-me as portas para reencontrá-la autêntica e sem ilusões. Desde que consegui reinterpretar os valores adquiridos na infância, tornou-se para mim uma obsessão a discussão sobre essas idéias, buscando, sempre que possível, sugerir às outras pessoas que façam o mesmo exercício reflexivo.

A reflexão permite identificar no fato religioso uma dualidade inquestionável: há a religião dos teólogos, dos doutores da igreja, fundamentada em princípios filosóficos milenares e sempre atualizados. Conquanto não aceite tais fundamentos, compreendo que eles são resultado do envolvimento humano com as questões da vida, pois também ali se encontra uma reflexão sobre os mistérios do mundo e, por conseguinte, uma escolha. Há, porém, a outra religião, a das massas, a do rebanho, a que é incorporada pelos fiéis sem qualquer avaliação e que, pelo próprio fato, adquire dimensão de prática supersticiosa. Se o fiel recebe a incumbência de orar, sem conhecer o sentido epistemológico da oração; se lhe condicionam a acreditar na existência de milagres, sem que lhe convençam plenamente de sua possibilidade; se o fazem admitir que a revelação divina está contida nos livros sagrados, mas não o informam de que forma eles foram sacralizados, fizeram dele, sem dúvida, um autômato, uma figura robotizada, um supersticioso. A religião da massa é fruto da manipulação que os teóricos das igrejas empregam para manter viva a chama da mensagem que eles defendem. Como a educação religiosa de ponta é inacessível à grande massa, a solução é impregná-la de princípios de fácil assimilação e administração, os quais trazem a recompensa de graças, bênçãos e, a maior de todas, a vida eterna. Não importa que os fiéis ignorem os princípios doutrinários, mas importa que obedeçam à Igreja. Não se pode perder de vista o sentimento de culpa, através do pecado, fator decisivo para manter sobre controle a comunidade de fiéis; o pecado carece de arrependimento e somente este é capaz de reaproximar o pecador de Deus. Não se pode perder de vista, também, que as igrejas disputam acirradamente a conquista dos féis, buscando uma posição hegemônica em todos os espaços sociais.

Ainda como instrumento de controle e ajuste da civilização, o cristianismo determina a seus fiéis, em tom imperativo, que eles devem amar-se uns aos outros, como se possível fosse viver o amor por decreto. A compreensão desse mandamento só se efetiva quando o fiel comprometido com o dogmatismo religioso admite ser capaz de amar igualmente todos os seus semelhantes como a si mesmo. Qualquer exame simples da realidade humana entende que se trata de uma grande fantasia. O homem é frágil, sua dimensão como ente-espécie é que lhe permite subsistir e perpetuar a própria espécie, mas sua inconclusão ainda o impede de alcançar a plenitude espiritual do amor. Somente em condições amplamente favoráveis, talvez pela primazia do intelecto prognosticada por Freud (2001, p. 83), o ser humano poderia alcançar um estágio ideal para aquela utopia religiosa, ressalvando-se que o alcance de tal primazia representaria, sem dúvida, a desnecessidade da religião. Na realidade, o homem ama apenas as pessoas com as quais criou uma interação afetiva, por força de relações consangüíneas ou de acidentais aproximações; com as demais, ele pode manter vínculos estreitos, respeitosos, solidários, generosos, de amizade, mas sem a intensidade do amor sugerido pelo mandamento. Relativamente às pessoas incluídas nas acidentais aproximações, o ser humano idealiza, dentro de determinadas condições, aquele ou aquela que pode ser amado (a) e somente o cumprimento dos pressupostos idealizados lhe abre as portas para a satisfação do sentimento correspondente ao amor. Trata-se, pois, de algo condicionado, de algo que atenda às elaborações afetivas do humano.

Pior de tudo é quando esse mandamento não repercute nas massas conforme esperado e o seu destino acaba sendo o aproveitamento utilitário, um investimento na esfera "espiritual". Não é verdade que grande parcela da massa de fiéis contribui para as instituições de caridade ou distribui esmolas aos dependentes da mendicância? Pois bem. Tal prática tem como escopo uma relação com Deus, visando a obtenção de bênçãos e, após a morte, a salvação da alma. A degeneração do mandamento do amor ao próximo faz com que desvalidos, pobres e miseráveis sejam utilizados como degraus por aqueles que, excitados pela mensagem, desejam alcançar os céus, além de receber em vida as graças terrestres. Quando há contribuições, ouve-se freqüentemente dos "piedosos": quem dá aos pobres empresta a Deus, eu fiz a minha parte e é dando que se recebe, esta última uma flagrante deturpação da oração de Francisco de Assis. Creio não estar falando nenhuma novidade.

Além das práticas “compassivas” dos fiéis que pretendem a vida eterna, vale registrar a atuação das igrejas no campo social. Embora passe despercebida por grande parte dos críticos e estudiosos das religiões, a ação das igrejas no combate à pobreza e à miséria fortalece bastante seu propósito de conquistar fiéis e manter o contingente já evangelizado, compensando, destarte, a fragilidade da argumentação que se sustenta no texto bíblico e na apologética. Em outras palavras, o trabalho social é o grande instrumento de aproximação aos fiéis, pois atua em duas pontas: a primeira seduz aqueles que são assistidos em suas necessidades imediatas (pobres, miseráveis e desvalidos), configurando-se assim, para eles, a presença de Deus em momento difícil; a segunda arregimenta pessoas que prestam serviços aos necessitados, por orientação dirigida pela respectiva igreja, e vislumbram alcançar graças e a vida eterna. Nesse particular, a Igreja Católica, no Brasil, conta com a coordenação ativa e eficiente da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, instituição que atua também no campo político, exigindo das autoridades constituídas o cumprimento de ações que venham a corresponder aos anseios das classes menos favorecidas. Ao mesmo tempo, diversas ações pastorais são desenvolvidas, realimentando entre as categorias assistidas o conceito sobrenatural já existente da presença de Deus. A nova investida, conhecida como “ opção preferencial pelos pobres” (CELAM de Puebla, 1979, convertida para opção pelos pobres, na CELAM de Aparecida, 2007), substitui a antiga aliança da cúpula da Igreja com os poderosos monarcas dos tempos idos e funciona como estratégia de sobrevivência de um credo cuja fragilidade teórica (ou teológica) não se sustenta à luz de qualquer investigação mais rigorosa. A partir do momento que os estados modernos decretaram sua separação da Igreja, esta soube buscar instrumentos de persuasão e convencimento que lhe permitissem manter aberto o acesso às massas, substituindo a força inquisitorial por formas inteligentes de evangelização. Embora essa pretensa metamorfose aponte para a manutenção de uma postura hegemônica, permito-me conjeturar que à medida que as nações compatibilizem a condição social de seus povos com níveis superiores de conhecimento, erradicando a miséria, a pobreza e a educação precária, o caminho natural das religiões será o registro histórico, quiçá em literatura semelhante à mitológica.

Concomitantemente às estratégias de sobrevivência da Igreja, não há dúvidas quanto à existência de fortes fatores psicológicos, compreendidos na psicologia de massa, para explicar a homogeneidade dos comportamentos decorrentes da catequese. Um deles diz respeito à necessidade de o ser humano pensar e agir coletivamente. O coletivo permite que ele seja um elo de uma corrente, que a constitua enquanto membro, e por ela se sinta amparado. Em contrapartida, o indivíduo deve contribuir para que o seu grupo social seja harmônico, homogêneo, obedecendo rigorosa e obsequiosamente às normas do ambiente cultural. Configura-se a servidão voluntária, a cumplicidade ingênua, e esta se assemelha ao que está contido nos diagnósticos de Chauí (1999, p. 340) e Dürkheim(RODRIGUES, J.A , 1995, p. 46-47); percebe-se também que a atrofia intelectual do adulto, citada por Freud(2001, p.74-75), indica que seu percurso tem início a partir do ingresso da criança na educação religiosa. Como conseqüência, a atrofia intelectual estabelece as condições para a capitulação do adulto e, desta, para a servidão voluntária. Quando afirmo que os caminhos emancipadores da educação passam pelo exame das questões levantadas por autores citados neste trabalho, aproveito a oportunidade para afirmar que algumas escolas já adotam a filosofia como alternativa para a religiosidade das crianças, em medida compatível com o conhecimento já construído.

Falei acima de um excelente instrumento teórico-metodológico de apuração do conhecimento, qual seja o paradigma indiciário de Ginzburg, cujo conteúdo é discutido durante nossa formação acadêmica. Todos nós, sem exceção, todos nós, espécie humana, temos à disposição indícios ou sinais particulares em diversas situações e atividades. Muitas vezes nos valemos desses indícios para expandir nosso conhecimento. Tais sinais também se nos apresentam nas coisas da religião, quando algo nos sugere sinais de contradição ou incompatibilidade com a doutrina. Qual é a reação de quem está fortemente contagiado pelo receituário sobrenatural? Ignorar, subestimar a validade daquele indício e desprezá-lo por inteiro. Mas se a reação for outra? Caberia a cada um interrogar-se a respeito dos conhecimentos que tem a respeito da religião que professa. Por exemplo: a) minha crença resulta de minha livre escolha ou de uma imposição de meus ascendentes? b) acredito eu de fato, rigorosamente, que os milagres existem ou os aceito porque o contexto religioso em que vivo fez-me vê-los como possíveis e reais? c) creio na revelação divina como resultado de uma reflexão ou porque a repetida informação de sua validade me convenceu de que Deus se utilizou desse instrumento para transmitir sua palavra? d) sou verdadeiro quando afirmo que a oração tem poder ou sou vulnerável, por conveniência, porque nela acreditando explico a mim mesmo o recebimento de graças e bênçãos? e) minha fé foi uma escolha amadurecida ou fruto da catequese/evangelização na infância? f) as religiões esperam que os indivíduos atinjam desenvolvimento cognitivo suficiente para o entendimento das respectivas doutrinas ou preferem estrategicamente evangelizá-los nos períodos ingênuos da infância e da adolescência, com o beneplácito de suas já cooptadas famílias? g) o pátrio poder permite aos pais situar seus filhos, na infância, em determinado contexto religioso ou cabe aos mesmos filhos a prerrogativa de conceber o mundo, subjetivamente, em estágio mais amadurecido da vida? Estas perguntas, caso respondidas com critério e destemida isenção, constituem um desafio para quem busca conhecer por si, inadmitindo o conhecimento pronto e sem o mínimo de comprovação lógica; é a atitude de quem pretende transpor os grilhões do senso comum e reencontrar-se com o período de liberdade, curiosidade aguçada, alegria e espontaneidade, subtraído na infância.

Não vejo por que duvidar da montagem dos cursos de pedagogia. Em nossa Universidade e em outros espaços acadêmicos, a teorização do conhecimento pedagógico alternativo é assimilada pelos educandos. Durante o curso, os trabalhos apresentados ou desenvolvidos revelam renovação do pensamento e provável elevação do potencial crítico do alunado. Nessa perspectiva, teria o Curso cumprido seus objetivos, pois os testes de avaliação demonstram que os graduandos ousam investigar-se, propõem a si um inventário de seus clichês culturais. Todavia, a riqueza dos saberes que são construídos nesses espaços perde no confronto com os fortemente arraigados estereótipos sócio-culturais dos novos pedagogos. Configura-se, então, um conflito irreparável: teoria e prática não se conciliam, não caminham juntas. Por outro lado, o educador não identifica em si esse desencontro. O fenômeno não é localizado, é geral, e perpassa todo o universo pedagógico brasileiro, justamente aquele que está encarregado de promover uma revolução na educação, de transformá-la na direção do homem emancipado e de uma sociedade mais justa. Por isso, é necessário que os educadores integrados à religião do senso comum evoluam de tal modo para a criticidade até o ponto que os faça compreender que sua crença em nada difere dos exercícios de adivinhação, como, por exemplo, astrologia, quiromancia, cartomancia, vidência etc. Para os adeptos do espiritismo, não basta aceitar incondicionalmente seus princípios, afirmando, de modo inseguro, ter provas irrefutáveis acerca da mística mediúnica e demais postulados kardecistas; cumpre-lhes verificar, sem medo do desamparo, a partir dos indícios de contradição que a doutrina apresenta e decidir somente após o exercício dialético ora sugerido. Uma vez que o indivíduo, não só o educador, se vale de instrumentos subjetivos de avaliação da realidade e descobre que seus princípios não são exatamente seus, multiplica-se nele o potencial criativo, tornando-o capaz de anular todas as inibições oriundas das concepções mágicas ou maravilhosas da vida. Por conseguinte, novas estratégias precisam ser articuladas, no sentido de fazer o profissional de educação crítico e identificado com a realidade. Permito-me afirmar que uma visão clara e refletida da questão religiosa, pelos educadores, em muito contribuirá para que a tão decantada práxis educativa seja o resultado de uma nova relação teórico-prática de todos os espaços educativos, principalmente o escolar.

Justamente por acreditar que é possível a transformação, transcrevo abaixo mais um fragmento do livro O Futuro de uma Ilusão, de Freud, posto que seu conteúdo me faculta encerrar este trabalho com uma mensagem de otimismo e coincidente com os propósitos manifestados, como segue:

“ Gerações novas, que forem educadas com bondade, ensinadas a ter uma opinião elevada da razão, e que experimentarem os benefícios da civilização numa idade precoce, terão atitude diferente para com ela. Senti-la-ão como posse sua e estarão prontas, em seu benefício, a efetuar os sacrifícios referentes ao trabalho e à satisfação instintual que forem necessários para sua preservação. Estarão aptas a fazê-lo sem coerção e pouco diferirão de seus líderes. Se até agora nenhuma cultura produziu massas humanas de tal qualidade, isso se deve ao fato de nenhuma cultura haver ainda imaginado regulamentos que assim influenciem os homens, particularmente a partir da infância”. (FREUD, 2001, p.14)

Bibliografia


AZANHA, José Mario Pires. Uma idéia de pesquisa educacional. São Paulo: Edusp,
1992.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 11ª ed. São Paulo: Ática, 1999.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 13ª ed. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1999.
FREUD, Sigmund. O Futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 2001.
GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas, Sinais: morfologia e história. São Paulo.
Companhia das Letras, 1989.
HUME, David. Investigação Acerca do Entendimento Humano. In: Os Pensadores-
Hume. São Paulo: Nova Cultural, 1999. INGENIEROS, José. O homem medíocre. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Getúlio   Costa, 1960.
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. 4ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. NIETZSCHE, Friedrich W. Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral. In Nietzsche – Obras Incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983
REGO, Teresa Cristina. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 9ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
RODRIGUES, J.A. (org). Durkheim. 7ª ed. São Paulo: Ática, 1995